Em evento acadêmico, estudantes do IFMG apresentam soluções que vão de inteligência artificial para academias a sistemas que modernizam a gestão pública e a indústria, revelando um ecossistema de inovação com os pés no chão.
O que um personal trainer, um gestor ambiental da prefeitura, um mestre de RPG e um engenheiro de custos de uma gigante da mineração têm em comum? Em um primeiro momento, talvez pouco. Mas, para os estudantes do curso de Bacharelado em Sistemas de Informação do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – Campus Ouro Branco, todos eles são protagonistas de um movimento silencioso e potente: a aplicação da tecnologia para resolver problemas concretos e, muitas vezes, negligenciados pelo mercado.
Entre os dias 28 e 30 de julho de 2025, o 5º Workshop de Sistemas de Informação (WSI) não foi apenas uma vitrine de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs). O evento se consolidou como um termômetro da inovação que brota no interior de Minas Gerais. As pesquisas e sistemas apresentados revelaram uma maturidade notável, atacando desde a baixa adesão às academias, como visto no trabalho “Desenvolvimento de um Sistema Inteligente baseado em LLM como Ferramenta de Apoio ao Profissional de Educação Física”, de João Gabriel Alves Junior, até as complexidades do controle orçamentário na indústria 4.0, detalhadas por Jonathan Lara Souza em “Desafios e Benefícios da Transformação Digital no Controle Orçamentário da Mineração”. Projetos como “Soluções Digitais na Gestão Ambiental Pública”, de Carlos Henrique Cenachi Ferreira, e “Mais Funcional, Mais Intuitivo: Reposicionamento Visual de um App Técnico no Setor Agrícola”, de Eduardo Alessandro Santana de Melo, demonstraram a capacidade dos futuros profissionais de olhar para o lado e transformar a realidade local.
Uma IA para cada necessidade
A inteligência artificial generativa, tecnologia que ganhou o mundo com ferramentas como o ChatGPT e o Gemini, foi uma das estrelas do evento, mas com uma abordagem pragmática. Em vez de soluções genéricas, os estudantes mostraram como especializar esses modelos para tarefas específicas, entregando eficiência e precisão.
O sistema de apoio a profissionais de educação física desenvolvido por João Gabriel Alves Junior, por exemplo, apresentou um assistente virtual apoiado no modelo GPT-4o-mini e “treinado” com as diretrizes das mais respeitadas associações de medicina esportiva, o ACSM e a NSCA. O resultado? Uma ferramenta capaz de gerar planos de treino personalizados e seguros , combatendo um dos principais motivos de abandono das academias: a famigerada “ficha padrão”.
Segundo a pesquisa, 63% dos novos alunos de academia no Rio de Janeiro abandonam os treinos nos primeiros três meses , e as prescrições genéricas são um dos grandes vilões. O sistema proposto automatiza entre 90% e 95% da estruturação do treino, liberando o profissional para focar no ajuste fino e na interação humana — um exemplo claro de como a IA pode aumentar a capacidade humana, e não simplesmente substituí-la.
Na mesma linha, Marcus Vinícius Ribeiro Andrade, em seu trabalho
“Detectando átomos de confusão utilizando o Gemini: percepções iniciais”, usou a IA do Google para uma tarefa de alta complexidade: identificar pequenos trechos de código que, embora funcionalmente corretos, são escritos de forma confusa e podem induzir a erros. A pesquisa testou a capacidade da ferramenta com prompts genéricos e específicos, concluindo que, sem uma “conversa” bem-direcionada e técnica (a chamada engenharia de prompt), a ferramenta se mostra ineficaz. O estudo aponta que a eficácia do Gemini está diretamente ligada à qualidade do comando dado pelo especialista, um recado importante para quem acredita que a IA, por si só, resolve tudo.
Modernizando a gestão, da prefeitura à fazenda
Outro tema forte no WSI foi o desenvolvimento de sistemas para superar ferramentas arcaicas, como as onipresentes planilhas eletrônicas, que, apesar de populares, são fontes de erros manuais e ineficiência.
O estudo de caso sobre o Sistema Intermunicipal de Gestão Ambiental (SIGA), da prefeitura de Ouro Branco, mostrou como uma solução desenvolvida “em casa” pode ser superior a sistemas padronizados. A plataforma, apresentada no artigo de Carlos Henrique Cenachi Ferreira, não apenas otimiza o licenciamento e a fiscalização ambiental, mas também integra políticas públicas exclusivas do município, como os programas “IPTU Verde” e “Empresa Amiga da Natureza”. A avaliação com os usuários foi um sucesso: o sistema alcançou uma pontuação de usabilidade de 82,27 em 100, classificada como “Excelente”. Para servidores que usavam o antigo sistema em papel, a nota foi ainda mais alta: 96,67.
Na mesma pegada de substituir as planilhas, Otávio Henrique Dias Sena, em
“Sistema de Planejamento Financeiro para Pequenas e Médias Empresas: Superando as Limitações das Planilhas”, desenvolveu uma solução web que automatiza a geração de relatórios cruciais, como a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), e a visualização de indicadores estratégicos. O feedback de uma contadora que validou o sistema foi extremamente positivo, destacando a integração das informações e a economia de tempo como os principais ganhos.
O setor do agronegócio, pilar da economia brasileira, também foi contemplado. O trabalho de Eduardo Alessandro Santana de Melo focou na melhoria da interface de um aplicativo de cálculos psicrométricos, essencial para o armazenamento de grãos. Uma interface pouco intuitiva pode levar a erros que comprometem safras inteiras. Após o redesenho, a usabilidade do app saltou de “Aceitável” para “Excelente”, um ganho de 17,36 pontos na escala SUS, mostrando que um bom design é, também, uma ferramenta de produtividade e segurança.
Para entender melhor:
- Psicrometria: É o estudo das propriedades do ar úmido, fundamental para atividades como secagem e armazenamento de grãos, onde o controle de umidade e temperatura é crítico para evitar perdas.
- LLM (Large Language Model): Modelo de Linguagem de Grande Escala, como o GPT, treinado com uma vasta quantidade de texto para entender e gerar linguagem humana. O fine-tuning (ajuste fino) é o processo de especializar um LLM para uma tarefa específica, usando um conjunto de dados menor e focado.
- OPEX e CAPEX: Siglas do mundo financeiro. OPEX (Operational Expenditure) são as despesas operacionais do dia a dia (salários, aluguel). CAPEX (Capital Expenditure) são os investimentos em bens de capital (máquinas, equipamentos, infraestrutura).
- SUS (System Usability Scale): Uma escala padronizada e confiável para medir a usabilidade percebida de um sistema. Uma pontuação acima de 80.3 é considerada excelente.
- Átomos de Confusão: Pequenos trechos de código que, embora funcionais, são escritos de maneira ambígua ou pouco clara, podendo levar a erros de interpretação por parte dos desenvolvedores.
- RPG (Role-Playing Game): Jogo de interpretação de papéis em que os jogadores criam personagens e vivem uma história narrada por um mestre.
Desafios da vida real: mineração e entretenimento
A complexidade da indústria 4.0 foi abordada no estudo de Jonathan Lara Souza sobre a transformação digital no controle orçamentário da CSN Mineração. A pesquisa expôs um desafio comum em grandes corporações: a dificuldade de integrar sistemas robustos como SAP e ferramentas de Business Intelligence (BI) com o trabalho manual ainda realizado em planilhas. A falta de integração gera retrabalho, inconsistências e dificulta uma visão consolidada dos dados de OPEX e CAPEX. O trabalho aponta para a necessidade de capacitação, cultura digital e integração sistêmica como pilares para o sucesso da digitalização no setor.
Até o universo do entretenimento teve seu espaço. No artigo
“Geração de Mapas de Combate de RPG Modulares com Base em Esboço Básico do Usuário”, Gabriel Oliveira Gomes criou uma ferramenta que gera mapas de combate para sessões de RPG a partir de um simples esboço desenhado pelo usuário. A solução ataca uma dor real dos mestres de jogo: a dificuldade e o tempo gasto para criar mapas que se encaixem em suas narrativas. Uma pesquisa com 51 jogadores confirmou que, embora a maioria utilize mapas prontos de plataformas como o Pinterest, há uma grande dificuldade em encontrar um que se ajuste à história. A ferramenta desenvolvida em Java otimiza esse processo, mostrando que a tecnologia pode, e deve, servir também à criatividade e ao lazer.
Ao final, o V Workshop de Sistemas de Informação do IFMG Ouro Branco deixou uma mensagem clara: a verdadeira inovação não está em criar a tecnologia mais disruptiva, mas em aplicá-la de forma inteligente para resolver os problemas que afetam as pessoas, seja no campo, no escritório ou em uma mesa de jogo.











