Ir para o conteúdo
Pesquisar
Close this search box.

Saber indígena é chave para crise climática, mas fica fora da universidade, aponta estudo

Um estudo bibliométrico da UNIOESTE revela que a produção científica sobre a importância do saber indígena para a crise climática cresceu, mas sua integração no ensino superior permanece mínima, criando um paradoxo que limita a formação de profissionais e a busca por soluções eficazes.
Um estudo bibliométrico da UNIOESTE revela que a produção científica sobre a importância do saber indígena para a crise climática cresceu, mas sua integração no ensino superior permanece mínima, criando um paradoxo que limita a formação de profissionais e a busca por soluções eficazes.

Pesquisa que analisou uma década de produção científica revela um paradoxo: enquanto a ciência valoriza o conhecimento tradicional, a formação de novos profissionais o deixa de lado.

A ciência mundial reconhece cada vez mais a sabedoria indígena como uma ferramenta vital contra a crise climática. No entanto, um paradoxo gritante persiste: esse mesmo conhecimento ancestral continua, em grande parte, trancado do lado de fora das salas de aula universitárias. A constatação vem de um novo estudo publicado na edição de julho da Revista de Gestão Social e Ambiental (RGSA), que mapeou a produção acadêmica sobre o tema e expôs uma fratura entre o discurso e a prática na educação superior.

O estudo, intitulado “A Sabedoria Indígena Frente à Emergência Climática: uma Análise Bibliométrica e suas Implicações para o Ensino Superior” , foi conduzido por um time de pesquisadores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), formado por Claudia Regina de Oliveira, Julião Freitas Martinez, Elias Josue Hernandez Zolano, Alvori Ahlert, Marli Renate Von Borstel Roeslers e Luciana Oliveira de Fariña.

O grupo mergulhou em uma década de publicações científicas, entre 2013 e 2025, para entender como o mundo acadêmico tem abordado o conhecimento dos povos originários frente às emergências do clima. O que emergiu dos dados é um campo de estudo em franca expansão, mas cujas lições mais profundas parecem ainda não ter permeado as estruturas que formam os profissionais do futuro.

O espelho dos dados

 

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores realizaram uma análise bibliométrica, uma espécie de raio-x quantitativo da produção científica, sobre 55 artigos de alto impacto publicados na base de dados internacional Web of Science. Os resultados mostram um crescimento consistente de publicações a partir de 2015, com picos em 2020 e 2024, indicando um interesse cada vez maior da comunidade científica global.

O estudo revela um campo altamente colaborativo, com uma média de quase 12 coautores por artigo e uma taxa expressiva de 81,82% de parcerias internacionais. Nesse cenário, o Brasil e os Estados Unidos se destacam como os principais polos de pesquisa, articulando redes que se espalham pela Europa e América do Sul. A pesquisa aponta ainda uma figura central nesse debate, o pesquisador J.D. Ford, que aparece como o autor mais produtivo e com maior número de citações, um sinal de sua influência na formatação do campo.

 

Um campo em ebulição

 

Mas sobre o que falam esses estudos? A análise das palavras-chave mais recorrentes desenha um mapa claro das preocupações dos cientistas. Termos como “mudanças climáticas” e “povos indígenas” são, sem surpresa, os mais frequentes. Logo em seguida, surgem conceitos como “conservação”, “resiliência”, “governança ambiental” e “serviços ecossistêmicos”. Isso indica que a ciência não olha para os povos indígenas apenas como vítimas vulneráveis da crise, mas como detentores de estratégias ativas para a adaptação e gestão de territórios.

A pesquisa também capturou uma sutil, porém importante, mudança no foco ao longo do tempo. Se até 2016 as discussões eram mais centradas em governança ambiental e conhecimento ecológico, a partir de 2022 ganharam força temas como “ativismo” e “sociedade civil”. Essa transição sugere que a academia passou a enxergar a dimensão política da sabedoria indígena, reconhecendo sua luta por autonomia e justiça climática como parte da solução.

 

O paradoxo da ausência

 

É aqui que a investigação aponta sua crítica mais contundente. Apesar de toda essa valorização no campo da pesquisa, o estudo conclui que há uma lacuna imensa quando se olha para o ensino. A sabedoria que a ciência se esforça para entender e catalogar raramente é integrada de forma estrutural aos currículos universitários. Os conhecimentos que ensinam a observar as sutis mudanças no sabor de um fruto, no comportamento de um animal ou no ciclo das chuvas — sinais que muitas vezes escapam aos instrumentos tecnológicos — não fazem parte da formação padrão.

Essa exclusão, que o sociólogo Boaventura de Sousa Santos classificaria como uma “epistemologia da ausência”, não apenas empobrece a formação de futuros profissionais, mas perpetua um modelo de ciência que, apesar de reconhecer outras formas de saber no papel, na prática se recusa a dialogar com elas em pé de igualdade. Autores indígenas como Ailton Krenak e Daniel Munduruku há muito alertam que o conhecimento tradicional não é um conjunto de técnicas, mas uma cosmovisão completa, uma forma de entender a vida como uma teia de interdependência que o mundo moderno decidiu ignorar, com consequências catastróficas.

 

Para entender melhor:

  • Bibliometria: Método quantitativo usado para analisar produções científicas. Ele mede padrões em dados como autores, palavras-chave e citações para identificar tendências e redes de influência em um campo de estudo.
  • Epistemologia da Ausência: Conceito do sociólogo Boaventura de Sousa Santos. Refere-se ao processo pelo qual a ciência moderna e a cultura ocidental tornaram invisíveis e desqualificaram conhecimentos e realidades de outros povos, especialmente os do Sul global, tratando-os como inexistentes ou irrelevantes.
  • Ecologia de Saberes: Proposta, também de Santos, para superar a exclusão. Defende que a justiça social global só é possível com uma justiça cognitiva global, onde diferentes formas de conhecimento (científico, indígena, popular) dialogam horizontalmente, sem hierarquias.
  • Serviços Ecossistêmicos: Benefícios que os seres humanos obtêm dos ecossistemas, como o fornecimento de água limpa, a polinização de culturas, a regulação do clima e o controle de enchentes.

 

Por que isso importa?

 

A integração desses saberes, argumentam os pesquisadores, não é uma questão de folclore ou de mera justiça histórica. É uma necessidade pragmática. A crise climática, como o próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhece, exige soluções que integrem diferentes formas de conhecimento. Ignorar a sabedoria de povos que há milênios desenvolvem formas de viver em harmonia com seus ecossistemas é, no mínimo, um erro estratégico.

O estudo conclui com um chamado à ação. Para os acadêmicos, a urgência é repensar currículos e métodos. Para os formuladores de políticas públicas, é preciso reconhecer os povos indígenas como protagonistas na criação de estratégias climáticas. E para a sociedade, fica o recado de que as soluções para a crise planetária talvez não venham apenas de laboratórios de alta tecnologia, mas também da escuta atenta ao que a terra, e os povos que nunca se separaram dela, têm a nos dizer. A universidade, como centro de produção de conhecimento, tem a responsabilidade e a oportunidade de construir essa ponte. Por enquanto, ela parece preferir o monólogo.

[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA