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O novo manual da agricultura: protocolo inédito detalha como o campo pode regenerar o Brasil

Estudo da Unicamp, Embrapa e outras instituições apresenta o Protocolo Padrão de Agricultura Regenerativa (PARS), um guia com 124 indicadores para uma produção agrícola sustentável que recupera o solo, sequestra carbono e aumenta a renda do produtor.
Estudo da Unicamp, Embrapa e outras instituições apresenta o Protocolo Padrão de Agricultura Regenerativa (PARS), um guia com 124 indicadores para uma produção agrícola sustentável que recupera o solo, sequestra carbono e aumenta a renda do produtor.

Estudo de pesquisadores da Unicamp, Embrapa e USP propõe um roteiro técnico para abandonar um modelo de produção esgotado e adotar práticas que recuperam o solo, aumentam a renda e combatem a crise climática.

Em meio a uma crise planetária tripla, marcada pela perda de biodiversidade, poluição generalizada e emissões alarmantes de gases de efeito estufa, um grupo de proeminentes pesquisadores brasileiros lança uma proposta ambiciosa para o coração da economia nacional: o agronegócio. No estudo “Protocolo Padrão de Agricultura Regenerativa Sustentável no Brasil (PARS)”, publicado em julho de 2025 como o Texto para Discussão n. 483 do Instituto de Economia da Unicamp, acadêmicos liderados por João Alfredo de Carvalho Mangabeira detalham um caminho para a transição do atual modelo agrícola, dependente de insumos químicos e agressivo ao solo, para uma agricultura que não apenas produz, mas regenera.

O documento, fruto de uma colaboração robusta entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), a Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições, apresenta-se como um guia técnico-operacional. A proposta é clara: criar um padrão para medir, valorar e, finalmente, recompensar as práticas agrícolas que geram impactos ambientais positivos, oferecendo uma resposta concreta tanto aos desafios climáticos quanto às crescentes exigências de um mercado global que começa a rejeitar o greenwashing.

 

Do carbono ao lixo: a dimensão ambiental

 

O protocolo estabelece que a transição para um modelo regenerativo passa, inevitavelmente, pela forma como a terra é manejada. A capacidade de um sistema de produção de sequestrar carbono é um dos pilares. O estudo aponta para sistemas biodiversos, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e os Sistemas Agroflorestais (SAFs), como verdadeiras usinas de remoção de CO2.

Pesquisas da Embrapa demonstram, por exemplo, que árvores em sistemas ILPF podem acumular, em média, oito toneladas de carbono por hectare a cada ano. Já SAFs com cacau podem retirar do ambiente cerca de 5 toneladas de carbono por hectare anualmente. Se o cultivo for orgânico, essa capacidade aumenta, e cada hectare de cacau pode compensar as emissões de quase quatro hectares de pecuária em sistema silvipastoril.

O documento também lança luz sobre o potencial das áreas de Reserva Legal (RL) e de Preservação Permanente (APP) dentro das propriedades. Se bem conservadas, essas áreas são grandes estoques de carbono. Na Amazônia, uma RL pode conter em média 118 toneladas de CO2 por hectare na vegetação. A conformidade com a legislação ambiental, tanto a brasileira quanto a internacional, como o regulamento antideflorestamento da União Europeia (EUDR), torna-se, assim, um pré-requisito fundamental.

 

No bolso e na terra: o fator humano

 

Longe de ser apenas uma agenda ambiental, a agricultura regenerativa é apresentada como economicamente viável. Segundo os autores, ao melhorar a saúde do solo e reduzir a dependência de fertilizantes e pesticidas importados, cujos preços são voláteis, os produtores podem diminuir custos e aumentar a estabilidade de suas colheitas. Isso abre portas para novas fontes de receita, como a venda de créditos de carbono ou pagamentos por serviços ambientais.

Contudo, o protocolo não ignora os desafios sociais profundos do campo brasileiro. Um indicador-chave é a sucessão familiar. A falta de oportunidades e de qualidade de vida no meio rural tem levado à evasão dos jovens, colocando em risco a continuidade de muitas propriedades. O estudo também avalia as condições de trabalho, moradia, acesso à saúde e o nível de endividamento dos produtores, entendendo que a sustentabilidade econômica só existe com dignidade social.

Para entender melhor:

  • Agricultura Regenerativa: Um conjunto de práticas agrícolas que visa restaurar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade e sequestrar carbono da atmosfera, em vez de apenas explorar os recursos.
  • PARS (Protocolo Padrão de Agricultura Regenerativa Sustentável): O sistema proposto no estudo para medir e classificar o nível de transição de uma propriedade para práticas regenerativas, usando 124 indicadores.
  • ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta): Um sistema que combina diferentes atividades (grãos, gado e árvores) na mesma área, otimizando o uso da terra e criando sinergias ecológicas.
  • Biochar: Um tipo de carvão vegetal produzido a partir de biomassa, que, aplicado ao solo, melhora sua fertilidade e armazena carbono por centenas de anos.
  • Remineralizadores (Pó de Rocha): Rochas moídas, como o basalto, que, aplicadas ao solo, liberam nutrientes lentamente e ajudam a capturar CO2 da atmosfera.
  • Greenwashing: Prática de marketing em que uma empresa promove uma imagem de responsabilidade ambiental que não corresponde à sua realidade, enganando consumidores.

 

A revolução que vem do solo

 

O critério agropecuário do PARS é onde a transformação se torna mais tátil. Ele se baseia no princípio da “endogeneidade”: construir a produção com base em recursos locais. Isso significa produzir insumos na própria fazenda ou em localidades próximas.

A metodologia detalha o potencial de técnicas inovadoras, mas de lógica ancestral. O uso de remineralizadores, ou pó de rocha, pode sequestrar de 4 a 12 toneladas de CO2 por hectare anualmente em climas tropicais, além de corrigir o pH do solo. O biochar, por sua vez, pode reter até 50% do carbono da biomassa original por mais de mil anos. Já os biofertilizantes e biodefensivos podem reduzir em até 50% o uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos, cuja produção consome grande quantidade de energia fóssil e libera gases de efeito estufa.

Práticas como o plantio direto, quando bem manejado, também mostram um potencial imenso. Estudos citados no documento apontam que o plantio direto em sistema orgânico pode fixar mais de 23 toneladas de carbono por hectare em uma década.

 

Regras do jogo: transparência e equidade de gênero

 

A governança é outro eixo crucial. Para os pesquisadores, não há sustentabilidade sem transparência, prestação de contas e equidade. O protocolo avalia desde o controle financeiro da propriedade até a forma como as decisões são tomadas em cooperativas e associações.

Um ponto de forte crítica social é a igualdade de gênero. O estudo destaca a relação de mão dupla entre clima e gênero: as mulheres são desproporcionalmente afetadas pelas mudanças climáticas, mas, ao mesmo tempo, são fundamentais para a solução. A inclusão de mulheres em espaços de decisão, o acesso à educação e a políticas de pagamento igualitário não são vistos apenas como justiça social, mas como uma estratégia eficaz para combater o aquecimento global e aumentar a resiliência das comunidades.

 

A vida que pulsa: biodiversidade e cultura

 

Os dois últimos critérios do protocolo, biodiversidade e cultura, humanizam a análise. A presença de fauna nativa, de polinizadores e de uma rica variedade de plantas não é apenas um enfeite, mas um indicador da saúde e do equilíbrio do ecossistema. Um sistema biodiverso, segundo os autores, é mais eficiente na fixação de carbono e mais resiliente a secas e pragas.

Por fim, o critério cultural reconhece que a sustentabilidade se ancora nos saberes, costumes e valores de cada comunidade. O PARS busca medir como o conhecimento tradicional é incorporado aos sistemas de produção e se há incentivos para que os jovens continuem o legado cultural local, garantindo que o desenvolvimento não apague identidades.

O protocolo, em sua essência, oferece uma régua. Com um sistema de pontuação que vai de “Não Conformidade” a “Nível Especialista”, ele permite que agricultores, cooperativas e governos identifiquem pontos fracos e fortes, traçando um plano claro para uma transição que, mais do que necessária, se mostra cada vez mais urgente.

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