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Glifosato e câncer: o que o herbicida mais popular do país está realmente fazendo com o nosso corpo?

Revisão de estudos científicos aponta a correlação entre a exposição ao agrotóxico glifosato e o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer. O herbicida é o mais utilizado no Brasil, gerando debate sobre regulação e saúde pública.
Revisão de estudos científicos aponta a correlação entre a exposição ao agrotóxico glifosato e o desenvolvimento de linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer. O herbicida é o mais utilizado no Brasil, gerando debate sobre regulação e saúde pública.

Onipresente nas lavouras brasileiras, o glifosato se consolidou como uma ferramenta essencial para o agronegócio. Sua eficácia no combate a ervas daninhas impulsionou a produtividade, especialmente na cultura da soja. Mas a que custo?

A substância, que já representou mais de 60% dos herbicidas usados no país, agora se encontra no centro de um intenso debate sobre saúde pública. Uma compilação de estudos científicos acende um alerta vermelho sobre sua possível ligação com o linfoma não Hodgkin (LNH), um câncer do sistema imunológico cujos casos duplicaram globalmente nas últimas duas décadas e meia, por razões ainda não totalmente compreendidas.

A mais recente consolidação dessas evidências vem de um estudo de revisão integrativa, intitulado “Impactos Imunotóxicos do Glifosato: Evidências sobre o Risco de Linfoma Não Hodgkin em Humanos” , de autoria das pesquisadoras Cecília Brenag Massaneiro, Valquiria de Paula Franco e Beatriz Essenfelder Borges. O trabalho delas sintetiza o que a ciência descobriu sobre o volume colossal de glifosato despejado no ambiente. Entre 1995 e 2014, a aplicação do produto saltou de 51 milhões para 747 milhões de quilos, um aumento de quase 15 vezes. Essa escalada exponencial levanta preocupações que vão além da porteira da fazenda. Por ser altamente solúvel em água, o glifosato pode contaminar o solo e fontes de água por meio do escoamento superficial, espalhando seus efeitos para muito além da área de aplicação.

 

O elo com o linfoma

 

Diversas pesquisas apontam para uma correlação preocupante entre a exposição ao glifosato e o desenvolvimento do LNH. Um estudo de meta-análise conduzido por Zhang e sua equipe em 2019, por exemplo, reforçou a associação ao analisar grupos com alta exposição a herbicidas à base do composto. Os resultados não estão isolados. Trabalhos epidemiológicos no Brasil, utilizando dados do Sistema Único de Saúde (SUS), também identificaram o glifosato como um fator de risco para a doença.

A desconfiança ganhou um contorno molecular com la pesquisa de Weisenburger, em 2021. O estudo apresentou um mecanismo biológico plausível para essa ligação: o glifosato poderia induzir a ativação de uma enzima que causa mutações nas células B, um tipo de célula de defesa do corpo. Na prática, seria como se o herbicida abrisse uma porta para o desenvolvimento de linfomas.

 

Dentro da célula: um rastro de danos

 

O que acontece no nível microscópico quando o corpo é exposto ao glifosato? Estudos laboratoriais pintam um quadro inquietante. Pesquisas demonstraram que o glifosato, mesmo em sua forma pura, pode causar danos significativos ao DNA de células humanas. Outras análises revelaram que o agrotóxico tem potencial para inibir a proliferação de células do fígado, pulmão e sistema nervoso.

O ataque parece se estender até mesmo às células-tronco adultas, conforme evidenciado por um estudo de 2015. O sistema imunológico, linha de frente da nossa defesa, também parece ser um alvo. Uma análise computacional de 2023 indicou que o glifosato pode interagir diretamente com receptores de linfócitos humanos, as células centrais da nossa imunidade, sugerindo a possibilidade de uma ativação descontrolada e anômala.

 

Para entender melhor:

  • Linfoma Não Hodgkin (LNH): É um tipo de câncer que se origina nas células do sistema linfático, que faz parte do sistema imunológico do corpo. Ele pode surgir em qualquer parte do corpo onde exista tecido linfático.
  • Citotoxicidade: Refere-se à capacidade de uma substância ser tóxica para as células, podendo levar à sua morte.
  • Genotoxicidade: É a propriedade de agentes químicos que podem danificar o material genético (DNA) de uma célula, causando mutações.
  • IARC: Sigla para Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) responsável por coordenar e conduzir pesquisas sobre as causas do câncer.

 

Guerra de pareceres e a regulação no Brasil

 

A discussão sobre os riscos do glifosato chegou ao topo das agências reguladoras, mas gerou um impasse. Em 2015, a IARC, ligada à OMS, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A decisão, no entanto, contrasta com avaliações de outras entidades, como a da União Europeia, que não chegaram à mesma conclusão, evidenciando uma divergência que gera incerteza.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) promoveu uma reavaliação toxicológica em 2019. Com isso, algumas formulações comerciais do produto, como o Roundup Transorb R, passaram a ser enquadradas em uma categoria de menor risco para danos agudos — a Categoria 5, de faixa azul, “improvável de causar dano agudo”. A questão, porém, é que essa classificação não resolve a controvérsia sobre os efeitos da exposição crônica e em baixas doses, que é o cerne da preocupação dos cientistas.

Os achados que se acumulam na literatura científica convergem para um ponto: os riscos associados à exposição contínua ao glifosato são reais e precisam ser levados a sério. A ciência aponta para a necessidade urgente de uma revisão nos limites de segurança permitidos, além de reforçar a importância de estudos mais aprofundados para embasar políticas públicas que coloquem a saúde humana e o meio ambiente como prioridades inegociáveis.

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