Comunidade em Igarapé-Miri, capital mundial do fruto, prova que quintais agroflorestais garantem lucro e segurança alimentar sem destruir a floresta
A agricultura convencional simplifica a natureza. Ela substitui, muitas vezes de forma agressiva, a diversidade natural por um número reduzido de plantas. Esse modelo artificial exige intervenção constante. Contra essa lógica de monocultivo, que ameaça recursos florestais, famílias da comunidade de Itamimbuca, em Igarapé-Miri (PA), resistem. Elas apostam nos quintais agroflorestais. O resultado é a união entre a preservação ambiental e a sobrevivência econômica.
Um estudo* recente, publicado em janeiro de 2026 pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mergulhou na realidade de seis famílias dessa localidade. A pesquisa revela como o saber tradicional, passado de pai para filho, mantém a floresta em pé.
A força do açaí e a diversidade
Igarapé-Miri não é apenas um ponto no mapa. O município é o maior produtor mundial de açaí. Dados indicam que a cidade responde por cerca de 28% da produção nacional. Contudo, em Itamimbuca, o açaí não reina sozinho de forma predatória. Ele divide espaço com outras culturas.
Os pesquisadores identificaram 20 espécies cultivadas nos quintais. O açaí e a mandioca lideram a lista de importância. Mas há também limão, laranja, alho e boldo. Essa diversidade garante não apenas o dinheiro da venda, mas a comida na mesa e o remédio caseiro.
As famílias locais não usam agrotóxicos. A adubação é natural. O caroço do açaí, que poderia ser lixo, vira adubo. Folhas e caules também retornam ao solo. Isso mantém a terra úmida e nutrida.
Um agricultor de 46 anos, ouvido pelo estudo, resume a lógica da sobrevivência local com precisão:
“Única maneira de fazer com pouco gasto, é saudável e garante uma vida melhor”.
O protagonismo feminino na floresta
Os quintais agroflorestais têm guardiãs. As mulheres desempenham um papel central nesse manejo. Elas são responsáveis diretas pela segurança alimentar e farmacêutica da família. O trabalho é diário, braçal e minucioso.
O estudo da UFPA destaca que essa vivência feminina enriquece a agricultura familiar. Uma agricultora de 28 anos detalhou sua rotina aos pesquisadores:
“O manejo é realizado manualmente limpamos eu e minha família, retiro todo o mato para o pé das plantas, faço isso diariamente”.
Essa dedicação vai além da limpeza. Ela envolve a transmissão de saberes para as crianças. Os mais novos aprendem, na prática, a respeitar os ciclos da natureza.
Resistência histórica
A comunidade de Itamimbuca tem raízes profundas. Ela foi fundada em 1961 por Anilo Fonseca dos Reis, um remanescente de quilombo. O nome do lugar vem do igarapé que cortava o terreno do fundador.
Hoje, cerca de 25 famílias vivem ali. A maioria é chefiada por homens, o que reflete ainda um padrão patriarcal. Porém, a gestão da biodiversidade nos quintais equilibra essas forças.
A educação, no entanto, é um desafio. A ausência de escolas na comunidade dificulta a vida dos jovens. Muitos abandonam os estudos para trabalhar na roça. Por isso, especialistas defendem uma “Educação do Campo”. Esse modelo conciliaria o tempo da escola com o tempo da colheita.
Políticas públicas necessárias
Os sistemas agroflorestais de Itamimbuca são um modelo de sucesso. Eles provam que é possível produzir sem devastar. As espécies nativas, como Cupiúba e Sucupira, convivem com as plantações comerciais.
Entretanto, falta incentivo. O estudo aponta a necessidade urgente de políticas públicas. É preciso disseminar essas informações. O saber agroecológico não pode ficar restrito a quem já o pratica. Ele precisa ser visto como a principal alternativa para o futuro da Amazônia.
*Agroecologia e sistemas agroflorestais: práticas desenvolvidas na agricultura familiar da comunidade Itamimbuca, Igarapé-Miri-PA.
Luciano Peres Correa
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