Modelo de produção camponês desafia a lógica do agronegócio e resgata a soberania alimentar como ato político*
O prato de comida sobre a mesa esconde uma disputa silenciosa, mas feroz. De um lado, está o modelo industrial, focado em commodities e lucro em escala. Do outro, resiste o campesinato. Para essas famílias, plantar não é apenas um negócio. É a essência da existência. E a agroecologia surge, neste início de 2026, não como uma técnica agrícola, mas como uma bandeira política de sobrevivência.
A distinção começa no vocabulário. O campo prefere o termo “comida” ao invés de “alimento”. Enquanto o alimento pode ser visto apenas como um produto nutricional ou mercadoria, a comida carrega história. Ela traz consigo aspectos sociais e culturais. É o modo de fazer camponês.
Essa produção contrapoe-se radicalmente ao que pesquisadores e movimentos sociais chamam de “agrohidronegócio”. Este modelo apropria-se de terras e águas para transformá-las em mercadoria. A lógica é a acumulação capitalista. O resultado, frequentemente, é a destruição da sociobiodiversidade e a expulsão de povos de seus territórios.
A técnica a serviço da política
Reduzir a agroecologia a uma “agricultura sem veneno” é um erro comum. O conceito vai muito além de substituir insumos químicos por orgânicos. Trata-se de uma transição de modelo.
Para especialistas, a confusão com a simples produção orgânica pode mascarar o potencial transformador da prática. Francisco Roberto Caporal e José Antônio Costabeber, referências no tema, são categóricos. Eles alertam que não se deve confundir agroecologia com as várias correntes da agricultura ecológica.
“Portanto, não se pode confundir Agroecologia com ‘agricultura sem veneno’ ou ‘agricultura orgânica’, por exemplo, até porque estas nem sempre tratam de enfrentar-se aos problemas presentes em todas as dimensões da sustentabilidade”, apontam os autores.
A agroecologia exige um enfoque político. Ela questiona as estruturas de poder no campo. Ao mesmo tempo, resgata saberes tradicionais que a “Revolução Verde” tentou apagar com a imposição de pacotes tecnológicos.
O roubo dos saberes ancestrais
Existe uma crítica profunda sobre como a ciência moderna lida com o conhecimento tradicional. Muitas vezes, práticas milenares são rebatizadas por acadêmicos e vendidas como “novas descobertas”.
Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, intelectual quilombola, expôs essa apropriação com clareza cortante. Para ele, o que hoje chamam de agroecologia já era a vida cotidiana nos quilombos e aldeias.
“Nós inventamos a roça de quilombo, mas mudaram o nome e agora querem nos vender nossos saberes, nos oferecendo cursos de agroecologia e cursos de casa de taipa”, criticou Santos (2023).
Ele foi além ao ironizar a gourmetização dos alimentos nativos. O que era comida de subsistência virou nicho de mercado.
“Hoje, mudaram o nome das nossas raízes: chamam de ‘plantas alimentícias não convencionais’. O que chamam de tomate cereja, era um tomatinho azedinho muito gostoso que nascia em qualquer lugar por onde caminhávamos”, completou.
Bispo também questionou o selo de “orgânico” encontrado nos supermercados. Segundo ele, é um produto. Às vezes sem veneno, mas que “não é produzido pelo saber orgânico, não é voltado para a vida”.
Segurança ou Soberania?
A discussão técnica desemboca em uma questão de direitos. Há uma diferença crucial entre segurança alimentar e soberania alimentar. Embora pareçam sinônimos, atendem a interesses distintos.
A segurança alimentar foca no acesso. O objetivo é garantir que as pessoas tenham o que comer, não importa a origem. É o conceito que embasa programas de transferência de renda. Já a soberania alimentar é mais profunda. Ela defende o direito dos povos de decidir o que e como produzir.
João Pedro Stedile, liderança histórica do setor, analisa essa diferença de forma crítica. Ele aponta as limitações das políticas que focam apenas no acesso imediato.
“O Bolsa-Família é a típica política de segurança alimentar, em que as famílias são assistidas pelo Estado para não passarem fome. Mas ficarão sempre dependentes e, portanto, não se libertarão das causas da fome”, avaliou Stedile (2008).
Para os movimentos camponeses, a comida não pode ser mercadoria. Ela é um direito humano e uma questão de soberania nacional. Acredita-se que cada região, por mais difícil que seja, tem condições de produzir o sustento de sua população.
Eficiência produtiva comprovada
Um dos mitos derrubados pela agroecologia é o da baixa produtividade. O argumento de que é preciso agrotóxicos para alimentar o mundo não se sustenta diante dos dados. Miguel Altieri, pesquisador da área, compilou evidências globais sobre o tema.
Os métodos agroecológicos mostram resultados robustos. Em muitos casos, superam a agricultura convencional, especialmente em ambientes adversos.
“Entre estes potenciais encontram-se: aumentar as colheitas de cereal de 50 a 200 por cento, incrementar a estabilidade da produção através da diversificação, melhorar as dietas e as rendas”, afirma Altieri (2012).
O papel do Estado
A viabilidade desse modelo depende de políticas públicas. Não basta a vontade do camponês. É necessário acesso à terra através da Reforma Agrária. Sem território, não há produção.
Além disso, o Estado precisa fomentar a transição. Instrumentos como a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO) são vitais. Outra frente de batalha é a implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA).
A agroecologia, portanto, não é um retorno ao passado. É uma proposta de futuro. Ela oferece uma saída para o impasse ambiental e social criado pelo modelo agroindustrial. É a garantia de que a comida continuará sendo um elo de vida, e não apenas uma cifra na bolsa de valores.
*CAMPESINATO E AGROECOLOGIA: produzindo comidas saudáveis
Bárbara Victória da Silva Soares
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